Entenda o legado de Stalin e as repercussões no Partido Comunista Soviético

Rússia (foto de Jan Reinicke na Unsplash)

Estes últimos dias de fevereiro de 2026 testemunharam os aniversários de vários eventos importantes. No dia 21, foram comemorados dois feriados: o 152º aniversário da imigração italiana para o Brasil e a conquista de Monte Castello, pela FEB, Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial. O dia 24 marcou o quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia e, finalmente, em 25 de fevereiro, de 1956, há 70 anos, foi aberto o 20º Congresso do Partido Comunista Soviético. Três anos antes, em 5 de março de 1953, Josef Stalin havia falecido e sendo sucedido por Nikita Khrushchev, que, no congresso, apresentou o “relatório secreto” sobre os crimes de Stalin, que chocou o comunismo e os comunistas em todo o mundo. 1956 não foi tanto um “ano inesquecível”, como o definiu o comunista italiano Pietro Ingrao, mas sim o “annus horribilis” dos comunistas soviéticos, italianos e internacionais.

O ano de 1956 foi, ao mesmo tempo, um ano de esperança para os países do Bloco Oriental. Do pódio do congresso, todos se concentraram nos danos que Stalin havia causado com seu “culto à personalidade” e nos erros de sua liderança do partido e do Estado. O golpe final veio de Khrushchev, que denunciou as políticas horrendas de Stalin, construídas sobre o culto à personalidade e sobre a supressão, até mesmo da menor dissidência. O ditador foi acusado de crimes hediondos. Khrushchev leu o relatório arrepiante, destinado a entrar para a história, na noite de 24 para 25 de fevereiro, em uma sessão fechada, realizada no salão principal do Kremlin e aberta apenas aos delegados, não a convidados estrangeiros ou jornalistas.

Entre os italianos, apenas Togliatti foi informado do relatório, sob a obrigação de não o mencionar a ninguém, nem mesmo a seus camaradas na delegação do Partido Comunista Italiano. Khrushchev falou por quatro horas, revelando que Stalin havia mandado matar todas as figuras de oposição dentro do partido: 70% dos quadros diretivos, líderes centrais e periféricos, foram assassinados, por agentes secretos, com um tiro na nuca.

Assombrado por pesadelos recorrentes, o ditador georgiano via conspirações inexistentes. O culto à personalidade foi imposto com métodos despóticos. Aqueles que não se submetiam enfrentavam a deportação para os “gulags”, campos de extermínio, semelhantes aos campos de concentração nazistas.

Milhões de pessoas foram executadas em massa; os “kulaks”, camponeses relativamente abastados — a espinha dorsal da agricultura russa — eram considerados inimigos da coletivização. Em um massacre massivo, centenas de militantes poloneses, alemães e italianos, que haviam fugido de seus países para escapar da perseguição nazista-fascista, desapareceram e foram assassinados em Moscou. A mera sugestão de uma acusação era suficiente para ser condenado a trabalhos forçados e exílio, na Sibéria. Khrushchev denunciou os erros na condução da guerra contra a Alemanha.

Ele se deteve no conceito de “inimigo do povo”, aplicado a qualquer pessoa que discordasse, de alguma forma, contra aqueles suspeitos de intenções hostis e contra aqueles com má reputação. Nos últimos anos do regime de Stalin, a colheita de grãos nas vastas planícies do império despencou para níveis inferiores aos da era czarista, e o número de vacas leiteiras entrou em colapso.

O relatório que demoliu a imagem de Stalin permaneceu secreto por alguns dias: publicado pelo New York Times, espalhou-se por todo o Ocidente, causando um terremoto na consciência de milhões de pessoas que, de boa-fé, haviam abraçado o comunismo-stalinismo como uma religião.

Na Itália, a revista L’Espresso foi a primeira a publicá-lo. A tempestade atingiu primeiro o Partido Comunista Italiano. Togliatti, cujo apelido era “il Migliore”, isso é, O Melhor, não o mencionou em seu relatório ao Conselho Nacional do partido, exceto por breves observações gerais. Quando terminou de falar, ouviu-se uma leve salva de palmas. Quando perguntado por que permaneceu em silêncio, o Migliore respondeu: “Eu esqueci”.

A repentina abertura de Khrushchev foi seguida prlo envio de tanques para a Hungria, em outubro daquele ano, 1956. Mas foi sobretudo na China de Mao que a mudança teve os efeitos mais severos, levando à ruptura definitiva entre os dois países. A impulsividade do homem — simbolizada pelo famoso gesto de bater o sapato na mesa nas Nações Unidas — também é evidente em sua decisão de instalar mísseis nucleares em Cuba, em outubro de 1962, a poucos quilômetros do território americano. Isso levou o presidente John F. Kennedy a reagir duramente, e o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, evitada apenas pela reversão de Khrushchev e pela retirada dos navios que transportavam os mísseis.

Deposto por uma conspiração liderada por Leonid Brezhnev, Khrushchev passou o resto da vida em virtual prisão domiciliar, condenado à damnatio memoriae, danação da memória. Ele morreu em Moscou, em 11 de setembro de 1971. Antes de sua reabilitação, patrocinada por Mikhail Gorbachev, seu nome era desconhecido para a maioria dos soviéticos.